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Como será a agricultura que conhecemos?

Há aproximadamente um par de décadas atrás surgia no Brasil o conceito da Agricultura de Precisão (AP).

Liderados por grupos de pesquisa e de agricultores de diversos estados, se espalhou rapidamente para as áreas produtivas, começando com o mapeamento de propriedades do solo e da produtividade na colheita, alguns equipamentos de piloto automático, como consequência da liberação do sinal GPS ao público civil, e foi avançando e se consolidando até os dias de hoje.

Se voltarmos um pouco mais no tempo, no início do século XX, a mecanização que ganhou impulso com o surgimento dos primeiros tratores, também foi responsável por uma revolução tecnológica no campo, trazendo um grande salto na eficiência produtiva agrícola.

Hoje em dia, com muito mais tecnologia de comunicação, uma gama de sensores modernos e confiáveis e sólidas plataformas de desenvolvimento disponíveis, vemos crescer um movimento de “digitalização” do campo, e com consequente fortalecimento e popularização das novas tecnologias aplicadas à agricultura.

O papel da agricultura

Não é novidade (mas é sempre impactante!) dizer que, segundo dados da FAO, o mundo precisará no mínimo dobrar a produção de alimentos até 2050 para sustentar uma população estimada em mais de 9 bilhões de pessoas.

E mais, tem-se grande expectativa que o Brasil seja um dos grandes responsáveis por fazer isso acontecer!

Na minha opinião, só conseguiremos atingir esse número com o uso adequado das novas tecnologias.

Sobre esse ponto, gosto de citar os pesquisadores José Eustáquio Vieira Filho e Albert Fishlow em seu livro Agricultura e Indústria no Brasil – Inovação e Competitividade (2017):

Tecnologia é imprescindível nos ganhos de eficiência produtiva.

Vieira Filho & Fishlow, 2017

Foi assim quando saímos de uma agricultura de força de trabalho manual ou de tração animal para a agricultura mecanizada, também ganhamos muito em eficiência produtiva nos últimos 40 anos com a adoção do Sistema Plantio Direto em relação ao convencional, e tudo indica que o resultado será o mesmo com a soma entre agricultura e tecnologias digitais.

Transformação na agricultura

O campo é um ambiente peculiar, dinâmico e em constante transformação.

As incertezas e variáveis são infinitas e sobre muitas delas temos pouco ou nenhum controle.

Além disso, cada momento é único, não se repete.

Agricultores não podem mais se contentar com um modelo de produção tradicional, em que se compram “pacotes tecnológicos” prescritos e calendarizados para uma safra inteira. Isso é insustentável!

É preciso analisar e justificar cada ação, cada insumo aplicado.

Não será mais aceitável que os produtores deixem de analisar os dados gerados em suas propriedades para garantir a melhor tomada de decisão para cada situação.

E só se faz isso com aquisição de dados confiáveis e análise qualificada dessas informações.

E é aí que entram as novas tecnologias, principalmente as tecnologias digitais, pois, estamos passando por um processo de revolução digital, e agronegócio será um dos principais setores a se beneficiar.

 

E então o que veremos de novas tecnologias no campo?

Agricultores ao redor do Brasil e do Mundo já estão implantando coletas de dados automatizadas com os mais variados sensores, análises de imagens obtidas por VANTs (Veículos Aéreos Não Tripulados, os famosos “Drones”) e por satélites, uso de inteligência artificial, adoção técnicas de manejo localizado da AP e estão colhendo os bons resultados com base em decisões mais assertivas.

Para citar outras aplicações, já temos diversas empresas e startups oferecendo soluções, desde gestão financeira e operacional das fazendas, fornecimento de dados e modelos agroclimáticos, segurança e rastreabilidade, manejo integrado de pragas e doenças, comercialização de produtos, e muitas outras.

Mas ainda tem muito mais tecnologia sendo desenvolvida e que será utilizada em breve. Veremos a expansão de soluções utilizando Internet das Coisas (IoT, do inglês Internet of Things), Big Data Analysis, Machine Learning, máquinas autônomas e tantas outras que ainda nem surgiram.

Os processos básicos da agricultura – plantar, cultivar e colher – não vão mudar. Mas as ferramentas que teremos para conduzir estas atividades vão gerar muito mais informações do que jamais imaginamos ter.

Sim, ainda temos muitos desafios a vencer, como por exemplo, o da conectividade no campo. E é por este motivo que investimentos em Pesquisa, Desenvolvimento & Inovação precisam ser muito bem direcionados para solucionar esses desafios.

E é nos ambientes e ecossistemas de inovação que a cooperação entre pesquisa científica pública e privada, startups e empresas deve ser cada vez mais incentivada (já temos a base legal no Marco de C,T&I – Decreto Federal 9.283/18) e deve ter um aspecto multidisciplinar e transversal – envolvendo especialistas em agricultura, tecnologia, negócios, inovação – para que os melhores resultados sejam obtidos e aplicados às necessidades da agricultura, por meio de tecnologias inovadoras e disruptivas.

E então, caríssimo produtor rural e que ainda tem dúvidas sobre o potencial de aplicação das tecnologias digitais na agricultura, que tal dar uma chance à elas?

Publicado por Anderson de Toledo

Engenheiro Agrícola, Doutor em Agronomia e pesquisador do IAPAR. Apaixonado por tecnologia, por agricultura e pelo resultado da combinação entre elas!

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